Revista de clássicos
em domínio público
Rastro do Tempo

Dossiê · Guia de Vestibular

Guia Vestibular Unicamp 2027: as 9 obras obrigatórias e como estudá-las

A lista oficial de leitura obrigatória da Comvest para o Vestibular Unicamp 2027, obra por obra — com destaque para Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, e um guia de leitura para cada título.

Publicado em 11 de julho de 2026 · Leitura · 14 min

A cada edição do Vestibular Unicamp, a Comissão Permanente para os Vestibulares (Comvest) publica uma lista fixa de nove obras de leitura obrigatória — a base sobre a qual são cobradas questões de literatura na primeira e na segunda fase da prova, além de servir de repertório para a redação. Diferente de bancas que trocam a lista inteira todo ano, a Unicamp adota um sistema de rotação parcial: a cada novo ciclo, três obras saem e três entram, enquanto seis permanecem. Isso significa que uma obra pode acompanhar o candidato por até três edições consecutivas do vestibular — o que também explica por que vale a pena estudá-la a fundo, e não apenas por cima, na véspera da prova.

Este guia reúne a lista oficial divulgada pela Comvest para o Vestibular Unicamp 2027, obra por obra, com o contexto histórico e literário necessário para ler cada uma delas com mais profundidade — e não apenas para “cumprir a lista”. Entre as nove, uma recebe atenção especial aqui: Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, de Lima Barreto, por ser o título que o selo Rastro do Tempo já reeditou em edição comentada, com Anatomia da Obra e guia de interrogação próprios — mas o objetivo deste dossiê é servir de mapa para a lista inteira, não apenas promover uma obra específica.

A lista oficial — Vestibular Unicamp 2027

A Comvest divulgou a lista atual em 25 de março de 2025, junto com as listas das edições 2028 e 2029, seguindo a prática de anunciar os títulos com antecedência para que escolas e candidatos possam se planejar. Das nove obras do ciclo 2027, três são novidades em relação à lista anterior: Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; as canções escolhidas de Paulo César Pinheiro; e Os Funerais da Mamãe Grande, de Gabriel García Márquez.

Autor(a)ObraSituação na lista 2027
Machado de AssisMemórias Póstumas de Brás CubasNova
Paulo César PinheiroCanções escolhidas (14 letras)Nova
Gabriel García MárquezOs Funerais da Mamãe GrandeNova
Ailton KrenakA Vida Não É ÚtilPermanece
José Paulo PaesProsas Seguidas de Odes MínimasPermanece
Caio Fernando AbreuMorangos Mofados (6 contos escolhidos)Permanece
Lima BarretoVida e Morte de M. J. Gonzaga de SáPermanece
Chimamanda Ngozi AdichieNo Seu PescoçoPermanece
Conceição EvaristoOlhos d’ÁguaPermanece

De Morangos Mofados, a Comvest cobra seis contos específicos, não o livro inteiro: “Diálogo”, “Além do Ponto”, “Terça-Feira Gorda”, “Pêra, Uva ou Maçã?”, “O Dia em Que Júpiter Encontrou Saturno” e “Aqueles Dois”. Das canções de Paulo César Pinheiro, são catorze letras nomeadas oficialmente pela banca, entre elas “Canto das Três Raças” (parceria com Mauro Duarte), “Cordilheira” (com Sueli Costa) e “Na Volta Que o Mundo Dá” (com Vicente Barreto) — uma escolha que amplia a leitura de poesia para além do livro impresso, incorporando a canção popular brasileira como forma literária plena.

Vale registrar o critério que a própria banca declarou para as substituições: a presença de literatura africana e latino-americana na lista, representadas por Márquez (colombiano) e por Beja — cuja obra entra apenas no ciclo 2029 —, dialoga com as diretrizes da Base Nacional Comum Curricular sobre diversidade de repertório. É um dado útil para quem vai escrever a redação: a Unicamp tem sinalizado, lista após lista, um interesse declarado em ampliar vozes historicamente sub-representadas no cânone escolar — indígenas, negras, latino-americanas, femininas.

Obra por obra: o que cada título exige do candidato

Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis, 1881)

A entrada mais aguardada da nova lista. Narrado por um defunto-autor que escreve sua autobiografia já morto, o romance rompe com o realismo convencional do século XIX ao assumir, desde a primeira linha, que quem fala não tem mais nada a perder — nem reputação, nem consequência. A banca da Comvest o define como “divisor de águas” na obra de Machado e na própria literatura brasileira: é o romance que inaugura o chamado “narrador defunto”, a digressão constante, o humor cínico que ataca a hipocrisia da elite escravocrata do Segundo Reinado sem nunca elevar a voz. Para o vestibulando, o desafio central é técnico: acompanhar como a forma fragmentada em capítulos curtíssimos — alguns com uma única frase — constrói sentido, e reconhecer nas “teorias” absurdas de Brás Cubas (o Emplasto Brás Cubas, a “teoria do Humanitismo”) uma sátira direta ao cientificismo e ao darwinismo social da época.

Canções escolhidas (Paulo César Pinheiro)

Cobrar canção como texto literário na prova de vestibular exige do candidato uma competência pouco treinada no ensino médio tradicional: ler letra de música com o mesmo rigor que se lê um poema, atento à métrica, à imagem e à parceria musical que a sustenta. Pinheiro é reconhecido por unir um trabalho refinado de linguagem a recursos da poesia popular e da oralidade — a lírica intensa convive, em sua obra, com inquietação política e social explícita, como em “Canto das Três Raças”, parceria com Mauro Duarte que atravessa a formação étnica brasileira em poucos versos. Estudar essas catorze letras de cor não é o objetivo; entender os temas recorrentes — memória, ancestralidade, resistência, o Brasil popular — é o que efetivamente cai na prova.

Os Funerais da Mamãe Grande (Gabriel García Márquez, 1962)

Coletânea de contos que antecede Cem Anos de Solidão e já contém, em miniatura, o mundo de Macondo e o realismo mágico que tornaria Márquez o escritor latino-americano mais influente do século XX. O conto-título narra o funeral grotesco e hiperbólico de uma matriarca que dominou, por décadas, toda uma região — uma sátira ao poder patriarcal, à Igreja e ao Estado latino-americanos, construída com o mesmo humor desmedido que caracteriza o autor. Para a prova, entender o realismo mágico não como fantasia gratuita, mas como estratégia narrativa para nomear violências históricas da América Latina que o realismo convencional não dava conta de expressar, é a chave de leitura mais cobrada.

A Vida Não É Útil (Ailton Krenak, 2020)

Ensaio breve do pensador indígena Ailton Krenak, uma das vozes mais citadas do pensamento contemporâneo brasileiro sobre crise climática, relação com a terra e crítica ao produtivismo capitalista. Krenak argumenta que a ideia de “utilidade” — de que tudo, inclusive a vida humana, precisa gerar valor mensurável — é uma imposição colonial que rompeu a relação ancestral entre povos originários e natureza. A obra é curta, mas densa; sua presença na lista reforça, novamente, o compromisso da Unicamp com autores indígenas e com um repertório de redação que dialoga diretamente com temas de sustentabilidade e justiça ambiental, recorrentes nos vestibulares brasileiros dos últimos anos.

Prosas Seguidas de Odes Mínimas (José Paulo Paes)

Poeta, tradutor e ensaísta, José Paulo Paes é conhecido pela concisão extrema — os “poemas mínimos” que dão nome à segunda parte do livro reduzem a linguagem ao osso, usando humor, ironia e jogos de palavras para tratar de temas graves em poucos versos. É uma obra que recompensa releitura: cada poema cabe em uma frase, mas a ambiguidade que Paes constrói ali costuma render as questões mais elaboradas da prova de literatura, exigindo do candidato atenção ao que não está dito explicitamente.

Morangos Mofados — seis contos (Caio Fernando Abreu, 1982)

Publicado em plena ditadura militar em fim de ciclo e sob os primeiros sinais da epidemia de AIDS, o livro de Caio Fernando Abreu retrata a geração que viveu a repressão política e a repressão sexual simultaneamente — corpos, desejos e afetos marcados pela urgência e pelo medo. Os seis contos cobrados pela Comvest (“Diálogo”, “Além do Ponto”, “Terça-Feira Gorda”, “Pêra, Uva ou Maçã?”, “O Dia em Que Júpiter Encontrou Saturno” e “Aqueles Dois”) tratam, cada um a seu modo, de solidão urbana, amor e impossibilidade de comunicação plena entre as pessoas — um recorte que pede do leitor atenção à prosa poética fragmentada, quase musical, típica do autor.

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (Lima Barreto, 1919)

Entre as nove obras da lista 2027, esta é a que o selo Rastro do Tempo já reeditou, em edição comentada com Anatomia da Obra completa — e vale um parêntese mais longo, tanto pela sua permanência na lista (também presente no ciclo 2025) quanto pela atualidade incômoda de seu argumento central.

Narrado por Augusto Machado, jovem funcionário público, o romance conta a vida do amigo mais velho, Gonzaga de Sá — funcionário cético, culto e melancólico —, mas pela ordem inversa: a morte é contada já no primeiro capítulo, quase de forma banal, e o resto do livro reconstrói a vida através das conversas dos dois pelo Rio de Janeiro do início da República. É um romance quase sem enredo no sentido tradicional: não há vilão, não há reviravolta, não há suspense. O que sustenta a obra são os diálogos entre Gonzaga e o narrador sobre burocracia, símbolos nacionais de mau gosto, a “aristocracia” postiça brasileira e — no momento mais citado do livro, no capítulo IX — o racismo científico.

Nessa passagem, um passageiro de trem afirma que certos povos têm “capacidade mental limitada” porque “a ciência já mostrou isso”. Gonzaga rebate com a tese central da obra: hierarquias entre povos não são fatos naturais nem científicos, mas fabricações de quem já detém poder, primeiro em nome da religião, depois em nome da ciência. É um argumento que Lima Barreto, filho e neto de escravizados, viveu na própria pele — inclusive na Escola Politécnica, de onde precisou se afastar. Para a prova, este é o ponto de maior recorrência: a Unicamp costuma cobrar do candidato a capacidade de relacionar o racismo científico da Primeira República retratado no livro com formas contemporâneas de racismo institucional — uma ponte direta entre literatura e atualidade que costuma render os melhores parágrafos de redação.

Vale notar também a estrutura urbana do romance: Gonzaga de Sá e o narrador caminham por endereços reais e verificáveis do Rio de Janeiro — Passeio Público, Santa Teresa, o Morro do Castelo, demolido entre 1920 e 1922, quase no instante em que o livro chegava às livrarias. Essa geografia funciona como material de reflexão: cada esquina, para Gonzaga, guarda uma camada de história que a maioria das pessoas atravessa sem ver — um recurso estético que dialoga com a técnica machadiana de digressão e observação social, e que vale a pena comparar, na redação, com o próprio Brás Cubas, também presente nesta lista.

Quem quiser se aprofundar além da leitura corrida pode consultar a edição comentada do Rastro do Tempo, com Anatomia da Obra situando o romance no contexto de 1919 — o ano da gripe espanhola no Rio, do fim da Primeira Guerra Mundial e do auge da política do “café com leite” — e a biografia completa de Lima Barreto, essencial para entender o quanto o argumento do livro nasce da experiência pessoal do autor.

No Seu Pescoço (Chimamanda Ngozi Adichie, 2009)

Coletânea de contos da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que alterna narrativas ambientadas na Nigéria e histórias de imigrantes nigerianos nos Estados Unidos. Os contos tratam de escolhas afetivas, choque cultural, expectativa familiar e as várias formas de deslocamento — geográfico, mas também de identidade — que atravessam a experiência de quem vive entre dois países e duas culturas. Como Os Funerais da Mamãe Grande, sua presença reforça o compromisso declarado da banca com literatura africana contemporânea, alinhado à diretriz da BNCC de ampliar repertórios culturais historicamente pouco presentes no currículo escolar brasileiro.

Olhos d’Água (Conceição Evaristo, 2014)

Vencedor do Prêmio Jabuti de contos, o livro de Conceição Evaristo reúne histórias de mulheres negras brasileiras — suas memórias, seus corpos, suas perdas e resistências, narradas com a “escrevivência” que a própria autora cunhou como conceito: a escrita que nasce da vivência coletiva de um povo, não apenas da experiência individual de quem escreve. É, entre as nove obras, uma das mais diretamente ligadas a temas de raça e gênero que costumam aparecer tanto na prova de literatura quanto na proposta de redação — e um contraponto valioso à leitura de Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá: dois retratos do racismo brasileiro, um de dentro da experiência negra vivida (Evaristo), outro da observação cética de um funcionário público (Lima Barreto, ele próprio negro, mas narrando por meio de um protagonista branco).

Como estudar as nove obras sem se perder

A extensão da lista assusta, mas a rotação parcial da Unicamp favorece quem organiza o estudo com antecedência. Algumas recomendações práticas:

Leia primeiro as obras que já apareceram em edições anteriores do vestibular — Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, Olhos d’Água, No Seu Pescoço, A Vida Não É Útil, Prosas Seguidas de Odes Mínimas e os contos de Caio Fernando Abreu têm, por já terem sido cobradas antes, histórico de questões e comentários de professores de cursinho disponíveis para consulta. As três entradas novas — Machado, Pinheiro e Márquez — ainda não têm esse histórico, o que exige leitura mais cuidadosa e menos dependente de resumos prontos.

Não leia apenas a sinopse. A Unicamp costuma cobrar trechos específicos e pedir que o candidato relacione passagem e contexto — decorar o enredo não substitui a leitura do texto. Uma edição comentada, com notas de rodapé e contextualização histórica, ajuda a economizar o tempo que se perderia pesquisando referências soltas (quem foi o Barão do Rio Branco, o que foi o Humanitismo, o que caracteriza a “escrevivência”), mas não substitui a leitura da obra original.

Busque conexões temáticas entre os títulos — é exatamente o que a prova de redação da Unicamp valoriza. Racismo científico e institucional atravessa tanto Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá quanto Olhos d’Água; a crítica ao produtivismo e à ideia ocidental de “utilidade” liga A Vida Não É Útil a certas passagens de Brás Cubas, cuja ironia também mira a vaidade e o vazio das instituições; o deslocamento identitário conecta No Seu Pescoço aos contos de Caio Fernando Abreu, ainda que em contextos históricos e geográficos completamente distintos. Montar esse mapa de temas cruzados — e não apenas resumir cada livro isoladamente — é o que costuma diferenciar uma redação mediana de uma redação de nota alta.

Antes de fechar o livro

As listas de leitura obrigatória mudam a cada ciclo, e a Comvest já divulgou também as composições para os vestibulares 2028 e 2029 — três obras novas entram a cada edição, seis permanecem. Vale sempre conferir a página oficial da Comvest antes de finalizar o planejamento de estudos, especialmente próximo à data de inscrição do vestibular, já que prazos e eventuais atualizações são publicados ali primeiro.

Este dossiê é mantido pelo selo Rastro do Tempo, que republica clássicos em domínio público — como Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá — em edição comentada, com nova ortografia, notas e a Anatomia da Obra situando cada título em seu tempo histórico. Para quem se prepara para o Vestibular Unicamp, é uma forma de transformar a leitura obrigatória em leitura compreendida.

Este dossiê é assinado por Leonardo T Viscione, do selo editorial Scriptio Ghostwriting & Editorial, curador da coleção Rastro do Tempo.