Autor · O romancista que o Brasil oficial tentou calar
Rio de Janeiro, 1881 — Rio de Janeiro, 1922 · 1 obra na coleção
Pré-modernismo brasileiro · crítica social · 1902–1922
Afonso Henriques de Lima Barreto (1881–1922) é um dos maiores romancistas brasileiros — e um dos que mais tempo esperou pelo reconhecimento. Filho e neto de escravizados, funcionário público, jornalista de imprensa popular e anarquista, ele escreveu sobre o Rio de Janeiro da Primeira República como só quem vivia por dentro das suas contradições poderia escrever: com humor afiado, indignação e uma lucidez que a crítica oficial de seu tempo preferiu ignorar.
Nasceu em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. O pai, João Henriques de Lima Barreto, era filho de uma escravizada e tipógrafo na Imprensa Nacional; a mãe, Amália Augusta, filha de escravizada, foi professora e chegou a dirigir sua própria escola, a Escola Santa Rosa. Perdeu a mãe, tuberculosa, aos seis anos de idade — uma ausência que marcaria toda a sua obra, povoada de mães fracas ou ausentes e de filhos entregues à própria sorte. Foi apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto, ex-primeiro-ministro do Império, monarquista que nunca teve com o afilhado uma relação próxima — outro sinal precoce da distância entre Lima Barreto e as elites que o cercavam sem nunca o acolherem de fato.
Aluno aplicado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro para estudar engenharia — carreira de prestígio, caminho natural de ascensão para um jovem talentoso. Foi lá que sentiu, na pele, o racismo que atravessaria toda a sua obra: um dos poucos alunos negros entre os filhos da elite branca, colega e professores fizeram questão de lembrá-lo do lugar que a sociedade lhe reservava. A morte do pai, tipógrafo que enlouqueceu e precisou de cuidados, obrigou-o a abandonar o curso para sustentar a família. Nunca se formaria engenheiro — mas o episódio lhe deu, de primeira mão, a matéria-prima da crítica que faria a vida inteira: a de um Brasil que prega mérito e pratica exclusão.
Empregou-se como amanuense na Secretaria de Guerra, cargo burocrático que ocuparia por quase vinte anos, até se aposentar por invalidez em dezembro de 1918. Foi essa vivência cotidiana da máquina pública — seus favorecimentos, sua ineficiência decorativa, seus rituais vazios — que forneceu a Lima Barreto a matéria de sua sátira mais afiada, presente tanto em Triste Fim de Policarpo Quaresma quanto em Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, cujo protagonista é, como ele, um funcionário público cético que observa o país de dentro do próprio aparelho que o sustenta.
Paralelamente ao emprego, construiu carreira na imprensa: em 1907 assumiu a secretaria da revista Fon-Fon a convite do poeta Mário Pederneiras, mas rompeu meses depois, sentindo-se desvalorizado; ainda em 1907 fundou e dirigiu a revista Floreal, seu primeiro projeto editorial autoral. Colaborou com publicações como a ABC, a Careta e diversos periódicos anarquistas — um jornalismo engajado, de imprensa popular, que sempre valorizou mais do que a aprovação da crítica literária estabelecida.
Publicou seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, em 1909, e Triste Fim de Policarpo Quaresma — sua obra mais célebre — em folhetim no Jornal do Commercio a partir de 1911, saindo em livro em 1915. Ainda assim, viveu o que a crítica posterior chamaria de “silêncio implacável”: de 1909 a 1922, os grandes nomes da crítica literária carioca praticamente o ignoraram, incomodados tanto por sua origem quanto pela crueza com que retratava o Brasil oficial. Coube a outro escritor, ainda jovem e também iniciante, reconhecer seu talento em particular: em 1916, Monteiro Lobato escreveu, em carta a Godofredo Rangel, que Lima Barreto faria sombra a romancistas consagrados de sua geração. Foi a Revista do Brasil, dirigida pelo próprio Lobato, que publicou Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá em 1919.
A saúde de Lima Barreto foi minada pelo alcoolismo desde cedo, agravado pelo peso de sustentar sozinho a família e por crises de humor que hoje se reconhecem como um provável transtorno afetivo bipolar. Foi internado pela primeira vez no Hospício Nacional de Alienados em 1914 — período em que travou amizade com o médico Juliano Moreira — e novamente em dezembro de 1919, permanecendo até fevereiro de 1920. Dessas experiências nasceram o Diário do Hospício e o romance inacabado O Cemitério dos Vivos, publicado postumamente: um dos primeiros relatos em primeira pessoa, na literatura brasileira, sobre o interior de uma instituição psiquiátrica.
Lima Barreto morreu em 1º de novembro de 1922, aos 41 anos, de um colapso cardíaco, em sua casa no bairro de Todos os Santos, no Rio de Janeiro — poucos meses depois de concluir Clara dos Anjos, que só seria publicado em livro em 1948. Foi sepultado no Cemitério São João Batista. O reconhecimento amplo de sua obra viria décadas depois, sobretudo pelo trabalho do pesquisador Francisco de Assis Barbosa, que a partir das décadas de 1940 e 1950 recuperou e organizou boa parte de seus escritos dispersos em jornais e revistas — o mesmo esforço editorial que, hoje, permite reeditar romances como Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá para novos leitores.
Lima Barreto é hoje lido como um dos primeiros grandes romancistas negros do Brasil e um dos mais lúcidos críticos da Primeira República — um autor que denunciou o racismo científico, a farsa do nacionalismo oficial e a hipocrisia das elites urbanas décadas antes de essas discussões ganharem o vocabulário que têm hoje. Definiu seu próprio projeto como “literatura militante”, expressão que tomou de empréstimo do escritor português Eça de Queiroz. Homenageado em selo postal em 1981 e em enredo de escola de samba em 1982, teve sua biografia revisitada em obras como Lima Barreto — Triste Visionário, de Lilia Moritz Schwarcz (2017). Ler Lima Barreto hoje é encontrar, escrito há mais de cem anos, um Brasil assustadoramente reconhecível.
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é leitura obrigatória do Vestibular Unicamp 2027 — veja o guia completo das 9 obras da lista.
A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.