Revista de clássicos
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Rastro do Tempo

Autor · O romancista que o Brasil oficial tentou calar

Lima Barreto

Rio de Janeiro, 1881 — Rio de Janeiro, 1922 · 1 obra na coleção

Pré-modernismo brasileiro · crítica social · 1902–1922

“Se, no século XVII, o que separava os homens de raças várias era o conceito religioso, há de ser o científico que as separará daqui a algum tempo... A benéfica ciência!” — Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá · 1919 “Cada louco traz em si o seu mundo, e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é muito outro do que ele vem a ser depois.” — Triste Fim de Policarpo Quaresma · 1911 “O Brasil não tem povo, tem público.” — Revista Careta · 1922 “Como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres...” — Clara dos Anjos · 1922 (póstumo) “Se, no século XVII, o que separava os homens de raças várias era o conceito religioso, há de ser o científico que as separará daqui a algum tempo... A benéfica ciência!” — Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá · 1919 “Cada louco traz em si o seu mundo, e para ele não há mais semelhantes: o que foi antes da loucura é muito outro do que ele vem a ser depois.” — Triste Fim de Policarpo Quaresma · 1911 “O Brasil não tem povo, tem público.” — Revista Careta · 1922 “Como esta nossa vida é variada e diversa, como ela é mais rica de aspectos tristes que de alegres...” — Clara dos Anjos · 1922 (póstumo)

O autor além do rótulo

Biografia

Afonso Henriques de Lima Barreto (1881–1922) é um dos maiores romancistas brasileiros — e um dos que mais tempo esperou pelo reconhecimento. Filho e neto de escravizados, funcionário público, jornalista de imprensa popular e anarquista, ele escreveu sobre o Rio de Janeiro da Primeira República como só quem vivia por dentro das suas contradições poderia escrever: com humor afiado, indignação e uma lucidez que a crítica oficial de seu tempo preferiu ignorar.

Origens no Rio de Janeiro

Nasceu em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro. O pai, João Henriques de Lima Barreto, era filho de uma escravizada e tipógrafo na Imprensa Nacional; a mãe, Amália Augusta, filha de escravizada, foi professora e chegou a dirigir sua própria escola, a Escola Santa Rosa. Perdeu a mãe, tuberculosa, aos seis anos de idade — uma ausência que marcaria toda a sua obra, povoada de mães fracas ou ausentes e de filhos entregues à própria sorte. Foi apadrinhado pelo Visconde de Ouro Preto, ex-primeiro-ministro do Império, monarquista que nunca teve com o afilhado uma relação próxima — outro sinal precoce da distância entre Lima Barreto e as elites que o cercavam sem nunca o acolherem de fato.

Retrato de Amália Augusta, mãe de Lima Barreto
Amália Augusta, mãe de Lima Barreto: professora e diretora de escola, morreu de tuberculose quando o filho tinha seis anos.

A Politécnica e o fim de um sonho

Aluno aplicado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro para estudar engenharia — carreira de prestígio, caminho natural de ascensão para um jovem talentoso. Foi lá que sentiu, na pele, o racismo que atravessaria toda a sua obra: um dos poucos alunos negros entre os filhos da elite branca, colega e professores fizeram questão de lembrá-lo do lugar que a sociedade lhe reservava. A morte do pai, tipógrafo que enlouqueceu e precisou de cuidados, obrigou-o a abandonar o curso para sustentar a família. Nunca se formaria engenheiro — mas o episódio lhe deu, de primeira mão, a matéria-prima da crítica que faria a vida inteira: a de um Brasil que prega mérito e pratica exclusão.

Funcionário público e escritor por dentro do sistema que criticava

Empregou-se como amanuense na Secretaria de Guerra, cargo burocrático que ocuparia por quase vinte anos, até se aposentar por invalidez em dezembro de 1918. Foi essa vivência cotidiana da máquina pública — seus favorecimentos, sua ineficiência decorativa, seus rituais vazios — que forneceu a Lima Barreto a matéria de sua sátira mais afiada, presente tanto em Triste Fim de Policarpo Quaresma quanto em Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, cujo protagonista é, como ele, um funcionário público cético que observa o país de dentro do próprio aparelho que o sustenta.

Paralelamente ao emprego, construiu carreira na imprensa: em 1907 assumiu a secretaria da revista Fon-Fon a convite do poeta Mário Pederneiras, mas rompeu meses depois, sentindo-se desvalorizado; ainda em 1907 fundou e dirigiu a revista Floreal, seu primeiro projeto editorial autoral. Colaborou com publicações como a ABC, a Careta e diversos periódicos anarquistas — um jornalismo engajado, de imprensa popular, que sempre valorizou mais do que a aprovação da crítica literária estabelecida.

Um escritor à margem da crítica oficial

Publicou seu primeiro romance, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, em 1909, e Triste Fim de Policarpo Quaresma — sua obra mais célebre — em folhetim no Jornal do Commercio a partir de 1911, saindo em livro em 1915. Ainda assim, viveu o que a crítica posterior chamaria de “silêncio implacável”: de 1909 a 1922, os grandes nomes da crítica literária carioca praticamente o ignoraram, incomodados tanto por sua origem quanto pela crueza com que retratava o Brasil oficial. Coube a outro escritor, ainda jovem e também iniciante, reconhecer seu talento em particular: em 1916, Monteiro Lobato escreveu, em carta a Godofredo Rangel, que Lima Barreto faria sombra a romancistas consagrados de sua geração. Foi a Revista do Brasil, dirigida pelo próprio Lobato, que publicou Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá em 1919.

O alcoolismo e as internações

A saúde de Lima Barreto foi minada pelo alcoolismo desde cedo, agravado pelo peso de sustentar sozinho a família e por crises de humor que hoje se reconhecem como um provável transtorno afetivo bipolar. Foi internado pela primeira vez no Hospício Nacional de Alienados em 1914 — período em que travou amizade com o médico Juliano Moreira — e novamente em dezembro de 1919, permanecendo até fevereiro de 1920. Dessas experiências nasceram o Diário do Hospício e o romance inacabado O Cemitério dos Vivos, publicado postumamente: um dos primeiros relatos em primeira pessoa, na literatura brasileira, sobre o interior de uma instituição psiquiátrica.

Retrato de Lima Barreto na ficha de internação no Hospício Nacional de Alienados
Retrato de Lima Barreto na ficha de sua internação no Hospício Nacional de Alienados — registro direto do período mais duro de sua vida.

Morte e reconhecimento tardio

Lima Barreto morreu em 1º de novembro de 1922, aos 41 anos, de um colapso cardíaco, em sua casa no bairro de Todos os Santos, no Rio de Janeiro — poucos meses depois de concluir Clara dos Anjos, que só seria publicado em livro em 1948. Foi sepultado no Cemitério São João Batista. O reconhecimento amplo de sua obra viria décadas depois, sobretudo pelo trabalho do pesquisador Francisco de Assis Barbosa, que a partir das décadas de 1940 e 1950 recuperou e organizou boa parte de seus escritos dispersos em jornais e revistas — o mesmo esforço editorial que, hoje, permite reeditar romances como Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá para novos leitores.

Legado

Lima Barreto é hoje lido como um dos primeiros grandes romancistas negros do Brasil e um dos mais lúcidos críticos da Primeira República — um autor que denunciou o racismo científico, a farsa do nacionalismo oficial e a hipocrisia das elites urbanas décadas antes de essas discussões ganharem o vocabulário que têm hoje. Definiu seu próprio projeto como “literatura militante”, expressão que tomou de empréstimo do escritor português Eça de Queiroz. Homenageado em selo postal em 1981 e em enredo de escola de samba em 1982, teve sua biografia revisitada em obras como Lima Barreto — Triste Visionário, de Lilia Moritz Schwarcz (2017). Ler Lima Barreto hoje é encontrar, escrito há mais de cem anos, um Brasil assustadoramente reconhecível.

Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá é leitura obrigatória do Vestibular Unicamp 2027 — veja o guia completo das 9 obras da lista.

Selo postal brasileiro de 1981 em homenagem a Lima Barreto
Selo postal de 1981, do Correio brasileiro, em homenagem ao centenário de nascimento de Lima Barreto.
Capa da primeira edição de Numa e a Ninfa, de Lima Barreto
Numa e a Ninfa (1915): sátira política publicada no mesmo período de Triste Fim de Policarpo Quaresma.

A obra no tempo

1 na coleção · 29 no total
  1. 1905 O Subterrâneo do Morro do Castelo (póstumo, 1997)
  2. 1905 Os Negros (teatro, póstumo, 1951)
  3. 1909 Recordações do Escrivão Isaías Caminha
  4. 1911 Triste Fim de Policarpo Quaresma (folhetim; livro em 1915)
  5. 1911 Casa de Poetas (teatro)
  6. 1911 O Homem que Sabia Javanês (conto)
  7. 1911 A Nova Califórnia (conto)
  8. 1912 As Aventuras do Dr. Bogoloff (póstumo, 1950)
  9. 1915 Numa e a Ninfa
  10. 1915 Abertura do Congresso (teatro, póstumo, 1951)
  11. 1919 Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá — ler na coleção →
  12. 1920 Histórias e Sonhos (contos)
  13. 1920 O Cemitério dos Vivos (póstumo e inacabado, 1956)
  14. 1920 Diário do Hospício (póstumo, 1956)
  15. 1922 Clara dos Anjos (escrito em 1921–1922; póstumo, 1948)
  16. 1922 Os Bruzundangas (póstumo)
  17. 1923 Bagatelas (crônicas, póstumo)
  18. 1951 Outras Histórias (contos, póstumo)
  19. 1951 Contos Argelinos (póstumo)
  20. 1953 Diário Íntimo (póstumo)
  21. 1953 Feiras e Mafuás (crônicas, póstumo)
  22. 1953 Marginália (crônicas, póstumo)
  23. 1956 Vida Urbana (crônicas, póstumo)
  24. 1956 Coisas do Reino de Jambon (crônicas, póstumo)
  25. 1956 Impressões de Leitura (crônicas, póstumo)
  26. 1956 Correspondência (2 vols., póstumo)
  27. 2010 Contos Completos de Lima Barreto (póstumo)
  28. 2010 O Soneto (teatro, póstumo)
  29. 2016 Sátiras e Outras Subversões (póstumo)

A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.