Autor · Pioneira do feminismo no Brasil
Papari (RN), 1810 — Rouen, França, 1885 · 1 obra na coleção
Pensamento brasileiro · feminismo e educação · 1832–1878
Dionísia Gonçalves Pinto — que assinaria sua obra como Nísia Floresta Brasileira Augusta — foi a primeira mulher a publicar, no Brasil, um livro inteiramente dedicado à defesa dos direitos femininos. Educadora, tradutora, escritora e pensadora, ela travou sozinha, a partir de 1832, um debate que o país só levaria a sério um século depois.
Nísia nasceu em 12 de outubro de 1810, numa fazenda em Papari — vila do litoral sul do Rio Grande do Norte que hoje leva o seu nome. Era filha de Dionísio Gonçalves Pinto, advogado português estabelecido no Brasil, e de Antônia Clara Freire, brasileira de uma das principais famílias da região. O pai, homem de leis e de letras, contrariou a regra que mantinha as mulheres longe dos livros e ensinou à filha o gosto pelo estudo — hábito que ela levaria ao limite. Ainda criança, mudou-se com a família para Goiana, em Pernambuco, onde estudou no convento das carmelitas e se formou a leitora voraz e a aprendiz de línguas que mais tarde escreveria em três idiomas.
Seguindo o costume da época, Nísia foi forçada a casar-se em 1823, aos treze anos, com Manuel Alexandre Seabra de Melo, proprietário de terras. A união durou poucos meses. Rompendo com o marido — gesto de extraordinária ousadia para uma mulher de seu tempo —, ela voltou à casa dos pais, ao custo do julgamento social. É impossível ler o Opúsculo Humanitário, três décadas depois, sem reconhecer nele a marca dessa recusa precoce a um destino imposto.
Por volta de 1828, Nísia uniu-se a Manuel Augusto de Faria Rocha, então estudante da Faculdade de Direito de Olinda. Foi a relação que lhe deu estabilidade e felicidade. Dela nasceram Lívia Augusta, em 1830; um segundo filho, em 1831, que morreu ainda bebê; e Augusto Américo, em 1833. Naquele mesmo ano, porém, Manuel Augusto morreu, deixando-a viúva aos vinte e três anos. A perda foi tão definidora que o nome com que ela assinaria toda a sua obra — Brasileira Augusta — guarda a memória do companheiro. Viúva, jovem e com filhos pequenos, Nísia tomou a decisão que definiria o resto de sua vida: sustentar-se pelo trabalho intelectual, caminho quase inédito para uma mulher no Brasil de então.
Foi em Porto Alegre, onde lecionou entre 1834 e 1837, e antes ainda — em 1832 — que Nísia publicou a obra que a tornaria pioneira: Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens, adaptação livre, em português, do pensamento de Mary Wollstonecraft, autora inglesa praticamente desconhecida no Brasil. Era o primeiro livro de seu gênero publicado no país.
Em 1838, no Rio de Janeiro, fundou o Colégio Augusto, que dirigiria por dezessete anos. O currículo era uma provocação: ao lado das prendas tradicionais, ensinava história, geografia, ciências, línguas e literatura às meninas. A imprensa conservadora atacou a escola e a diretora, questionando a “moralidade” de uma mulher que ousava ocupar o espaço público do pensamento.
A partir de 1849, Nísia passou a viver entre o Brasil e a Europa — em estadas longas: 1849–1852, 1856–1872 e, por fim, de 1875 até a morte. Viveu e viajou por Paris, pela Itália, pela Grécia, e ainda por Londres, Berlim e Lisboa. Em Paris, a partir de 1851, tornou-se discípula e amiga próxima de Auguste Comte, fundador do positivismo. A relação foi de mão dupla: Comte elogiou o Opúsculo Humanitário em carta de 1856, e o discurso que Nísia proferiu diante do túmulo de Clotilde de Vaux, em 1857, comoveu o filósofo e foi incorporado à “Religião da Humanidade” positivista. Ainda assim, ela jamais aceitou o lugar secundário que o próprio positivismo reservava às mulheres: usou as ferramentas do tempo sem se curvar às suas premissas.
Nísia Floresta morreu em 24 de abril de 1885, em Rouen, na Normandia, vitimada por uma pneumonia, aos 74 anos. Foi sepultada num cemitério de Bonsecours, longe do país que havia criticado com tanta lucidez e que ainda levaria quase meio século para conceder o voto às mulheres, em 1932. Em agosto de 1954, seus restos mortais foram finalmente trasladados para o Brasil e depositados na fazenda Floresta, no Rio Grande do Norte — a mesma terra onde nascera. A vila de Papari já fora rebatizada com o seu nome em 1948. O reconhecimento, como tantas vezes acontece com quem chega cedo demais, veio quando ela já não podia vê-lo.
A tese central de Nísia — que o nível de educação das mulheres é o termômetro mais preciso da civilização real de uma sociedade — não envelheceu. O que mudou, do século XIX para cá, é que a discussão saiu do plano da moral e entrou no da evidência. O que não mudou é que ela ainda precisa ser feita. Ler Nísia Floresta hoje é perceber que algumas batalhas mudam de forma, mas não de conteúdo — e que a voz que as nomeou com mais clareza, no Brasil, foi escrita há quase duzentos anos.
A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.