Revista de clássicos · em domínio público
Rastro do Tempo

Autor · O último clássico da prosa russa

Ivan Bunin

Voronej, 1870 — Paris, 1953 · 1 obra na coleção

Realismo russo · prosa clássica no exílio · 1887–1953

“O senhor de São Francisco — ninguém, nem em Nápoles nem em Capri, jamais soube lhe dizer o nome.” — O Senhor de São Francisco · 1915 “Tentei olhar o mundo e deixar sobre ele a marca da minha alma.” — Discurso autobiográfico · Nobel, 1933 “O senhor de São Francisco — ninguém, nem em Nápoles nem em Capri, jamais soube lhe dizer o nome.” — O Senhor de São Francisco · 1915 “Tentei olhar o mundo e deixar sobre ele a marca da minha alma.” — Discurso autobiográfico · Nobel, 1933

O autor além do rótulo

Biografia

Ivan Alekséievitch Bunin (1870–1953) foi o primeiro escritor russo a receber o Prêmio Nobel de Literatura e é considerado o último grande mestre da prosa clássica russa — o elo que liga Tolstói e Tchékhov ao século XX. Poeta antes de ser contista, cronista de uma Rússia rural que ruía sob seus olhos e exilado que jamais aceitou o regime soviético, Bunin construiu uma obra de rigor quase musical, feita de luz, cheiro e memória. Para entender de onde vem essa prosa, é preciso conhecer não só os fatos da sua vida, mas o mundo de gênios que a cercou: as mãos que apertou, as cartas que trocou e as sombras — de Púchkin a Tolstói — sob as quais escolheu escrever.

Origens na nobreza rural

Ivan Bunin em 1891, aos vinte anos
Bunin em 1891, ano em que reuniu sua primeira coletânea de versos. Publicava em jornais desde os dezessete anos; diploma, nunca teve.

Bunin nasceu em 22 de outubro de 1870, em Voronej, no coração da Rússia agrária, numa família da velha nobreza empobrecida — a mesma linhagem que dera à literatura russa a poetisa Anna Búnina, no século XVIII, e o poeta Vassíli Jukóvski, mestre e amigo do próprio Púchkin. Não era um detalhe genealógico qualquer: Bunin cresceu sabendo-se herdeiro de sangue de uma tradição literária, e essa consciência de pertencer a um mundo que se extinguia marcaria tudo o que escreveu. A infância e a juventude passou quase inteiramente no campo, nas propriedades decadentes do pai, nas férteis estepes da Rússia central de onde saíram, de Turguêniev a Tolstói, quase todos os grandes escritores do país. Foi ali que aprendeu a observar a natureza com a minúcia que se tornaria sua marca: poucos escritores souberam registrar como ele o exato tom de um pôr do sol ou o cheiro de uma maçã guardada no sótão.

Um autodidata guiado pelo irmão

Os irmãos Iúli e Ivan Bunin fotografados em Poltava por volta de 1892
Os irmãos Iúli e Ivan Bunin em Poltava, por volta de 1892. Ex-preso político, Iúli foi a escola que Ivan não teve.

A ruína financeira da família tirou-lhe a escola formal: Bunin frequentou o ginásio de Ieléts, mas não o concluiu. Sua verdadeira formação veio do irmão mais velho, Iúli, intelectual e ex-preso político ligado ao movimento populista, que lhe ensinou línguas, filosofia e literatura em longas conversas caseiras — foi Iúli, mais do que qualquer professor, quem plantou nele o rigor intelectual e o gosto pelos clássicos. Aos dezessete anos publicou os primeiros poemas; pouco depois empregava-se em jornais de província e em escritórios, sempre viajando muito — pela Itália, Sicília, Turquia, Grécia, Egito, Síria e Palestina —, um aprendizado de mundo que substituiu o diploma que nunca teve. “Tentei olhar o mundo e deixar sobre ele a marca da minha alma”, resumiria mais tarde.

Entre os gigantes: as amizades que o formaram

Nenhum retrato de Bunin fica de pé sem as figuras imensas que cruzaram sua juventude — e é aqui que a sua biografia deixa de ser a de um provinciano autodidata e passa a ser a de um herdeiro reconhecido pela própria realeza literária russa. Em janeiro de 1894, aos vinte e três anos, Bunin conheceu Liev Tolstói em Moscou. A admiração beirava a devoção: por um tempo tentou literalmente viver segundo os preceitos do tolstoísmo — a vida simples, o trabalho manual — antes de se afastar dessa doutrina no início da década de 1910, sem jamais perder a reverência pelo escritor. Décadas depois, no exílio, dedicaria a Tolstói um livro inteiro de meditação, A Libertação de Tolstói (1937).

Ivan Bunin e Anton Tchékhov sentados lado a lado, antes de 1904
Bunin e Tchékhov, antes de 1904, num registro sem pose. Dos dias na casa de Yalta, Bunin diria: “uma das lembranças mais felizes da minha vida”.

Mais próxima e mais afetuosa foi a amizade com Anton Tchékhov, que conheceu em 1895. Os dois se corresponderam com regularidade, e Bunin tornou-se presença constante na casa do escritor em Yalta; recordaria aqueles dias como “uma das lembranças mais felizes da minha vida”. Tchékhov saudou seus primeiros contos — ainda que achasse neles “densidade” demais — e foi, dos mestres, o que mais de perto moldou o senso buniniano de contenção e economia. A morte precoce de Tchékhov, em 1904, deixou-lhe uma ferida que ele tentaria elaborar num livro de memórias sobre o amigo, jamais concluído.

A partir de 1899, Bunin ligou-se a Maksím Górki, então a estrela ascendente das letras russas e seu oposto político. Dedicou-lhe a coletânea Folhas que Caem (1901) e passou com ele os invernos de 1912 a 1914 na ilha de Capri. Górki, mesmo depois que a Revolução rompeu de vez a amizade dos dois, continuou a classificá-lo entre os maiores escritores russos vivos. Foi também no fim dos anos 1890 que Bunin entrou para o círculo literário Sreda (“Quarta-feira”), fundado por Nikolai Teleshov, onde convivia toda semana com nomes como Aleksandr Kuprin, Leonid Andréiev e o próprio Górki, além de receber, como visitante, Tchékhov. Da vida artística de Moscou fazia parte ainda sua amizade com o compositor Serguei Rachmáninov e com o lendário baixo Fiódor Chaliápin — provas de que Bunin transitava não só entre escritores, mas no coração da cultura russa de seu tempo.

Os seis membros do círculo literário Sreda reunidos em torno de uma mesa em 1902: Skitálets, Andréiev, Górki, Teleshov, Chaliápin e Bunin
O círculo Sreda em 1902, com a legenda impressa da época: Skitálets, Andréiev, Górki, Teleshov, Chaliápin e Bunin — este, o último à direita, na poltrona. Numa única mesa, boa parte da literatura e da música russas daquele momento.

Esse pertencimento foi coroado em 1909, quando a Academia Russa de Ciências o elegeu um de seus mais jovens membros honorários — a mesma honraria que ostentava Tolstói. Aos trinta e nove anos, o menino sem diploma de Ieléts sentava-se, oficialmente, entre os imortais da literatura de seu país.

Do verso à prosa

Bunin estreou como poeta, e a poesia jamais o abandonou. Contra a corrente do seu tempo, recusou o Simbolismo então dominante — a estética nebulosa e mística de Aleksandr Blok e Andrei Biéli, que reinava na Rússia da virada do século — e permaneceu fiel à clareza dos velhos mestres. Seus deuses eram outros: Púchkin acima de todos, Liérmontov, e a linhagem realista de Turguêniev, Tolstói e Tchékhov. Enquanto a chamada Idade de Prata explodia em experimentos ao seu redor, Bunin escrevia como quem guardava uma chama antiga. Sua obra de estreia madura, a coletânea Folhas que Caem (1901), e a tradução do Canto de Hiawatha, de Longfellow, renderam-lhe o Prêmio Púchkin, a mais alta honraria da Academia Russa de Ciências — que ele receberia uma segunda vez. Aos poucos, porém, foi a prosa que o consagrou. Em A Aldeia (1910) e Vale Seco (1912) traçou um retrato sombrio e sem idealizações do campesinato russo, contrariando tanto o populismo sentimental quanto o otimismo revolucionário de sua época.

Página do jornal Orlovskii Viéstnik de 2 de maio de 1896, trazendo a primeira publicação da tradução de O Canto de Hiawatha por Bunin
Orlovskii Viéstnik nº 114, quinta-feira, 2 de maio de 1896. Sob o título Pêsn o Gaiavatê — O Canto de Hiawatha —, a primeira publicação da tradução de Bunin para o poema de Longfellow, assinada “Iv. Búnin”. O trabalho lhe valeria o Prêmio Púchkin; saiu, como quase tudo no começo, num jornal de província.

O Senhor de São Francisco

Frontispício da edição alemã Der Herr aus San Francisco, publicada pela S. Fischer Verlag em Berlim, 1922
Der Herr aus San Francisco, S. Fischer Verlag, Berlim, 1922. O conto de 1915 ganhava a Europa em livro quando seu autor já era um exilado sem país.

Em 1915 Bunin escreveu aquele que se tornaria seu conto mais célebre: O Senhor de São Francisco. A história de um milionário americano que morre subitamente durante um cruzeiro de luxo pela Europa — e cujo corpo é despachado de volta, esquecido, no porão do mesmo navio — é uma parábola implacável sobre a vaidade da riqueza e a indiferença da morte. Escrito em prosa de precisão cristalina, o conto revelou ao mundo um autor à altura dos grandes mestres russos que o antecederam.

Revolução e exílio

A Revolução de 1917 foi, para Bunin, uma catástrofe. Monarquista de temperamento e inimigo declarado dos bolcheviques, deixou Moscou em maio de 1918 e registrou o colapso da velha Rússia no diário Dias Malditos, um dos mais ferozes testemunhos anti-revolucionários da literatura russa. Depois de quase dois anos no sul do país, emigrou definitivamente em fevereiro de 1920. Instalou-se na França, dividindo a vida entre Paris e Grasse, nos Alpes Marítimos, onde viveria o resto dos dias — pobre, orgulhoso e escrevendo sem descanso sobre a pátria perdida.

O Nobel e os anos franceses

Retrato de Ivan Bunin de chapéu, autografado e datado de novembro de 1937, em Paris
Retrato dedicado e assinado de próprio punho: “Ivan Bunin, Novembre 1937, Paris”. Quatro anos depois do Nobel, a fama não o havia tirado da pobreza.

No exílio, longe de definhar, sua arte amadureceu — e à sua volta formou-se toda uma constelação de gênios russos desterrados. Paris tornou-se a capital de uma Rússia paralela, e Bunin, seu decano incontestável: em torno dele gravitavam Aleksandr Kuprin, Ivan Chmeliov, a poeta Marina Tsvetáieva, o ensaísta Mark Aldanov — que se tornaria seu amigo mais fiel — e o casal simbolista Dmítri Merejkóvski e Zinaída Gippius. Foi nesse círculo que um jovem escritor iniciante, Vladímir Nabókov, começou a escrever-lhe em 1921 cartas de admiração quase filial, tratando-o como mestre; com os anos, a reverência do futuro autor de Lolita se transformaria numa rivalidade célebre entre os dois maiores prosadores da emigração. Escreveu O Amor de Mítia (1925) e, sobretudo, A Vida de Arséniev, romance autobiográfico em que a memória da Rússia se transfigura em pura poesia.

Ivan Bunin com Galina Kuznetsova, I. Trótski, Vera Búnina e Andrei Sédykh na cerimônia do Nobel em Estocolmo, 1933
Estocolmo, 1933. Da esquerda para a direita: Galina Kuznetsova, I. Trótski, Vera Búnina, Andrei Sédykh e Bunin — o primeiro russo a receber o Nobel de Literatura, e um homem sem país que o comemorasse.

Em 1933, Bunin tornou-se o primeiro russo a receber o Nobel de Literatura, “pela arte rigorosa com que deu continuidade às tradições da prosa clássica russa”. A caminhada até lá fora longa: fora indicado ao prêmio dezoito vezes desde 1923, quando recebeu o apoio do francês Romain Rolland, ele próprio um Nobel, numa campanha discreta conduzida pelo amigo Aldanov. Foi um triunfo carregado de simbolismo: o prêmio coroava não o país soviético, mas a Rússia da emigração. Já durante a Segunda Guerra, escondido em Grasse e recusando-se a colaborar com os ocupantes — a quem, apesar da miséria, negou qualquer gesto de simpatia —, escreveu Aleias Escuras (1943), o ciclo de contos sobre o amor e a memória que muitos consideram sua obra-prima.

Morte e legado

Túmulo de Ivan Bunin e Vera Búnina no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois
O túmulo de Bunin e de sua mulher, Vera, no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois, nos arredores de Paris.

Bunin morreu em Paris, em 8 de novembro de 1953, na pobreza, e foi sepultado no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois. Deixou uma obra que é, ao mesmo tempo, o epílogo da grande literatura russa do século XIX e uma das vozes mais originais do exílio. Sua prosa — sensorial, exata, avessa a qualquer sentimentalismo — atravessou o século e continua a ser lida como um modelo de contenção e precisão. Ler Bunin hoje é entrar num mundo que desapareceu por completo e que, justamente por isso, ele salvou para sempre: a Rússia dos pomares, das estepes e das casas silenciosas, guardada palavra por palavra na memória de quem nunca pôde voltar.

Carta manuscrita de Aleksei Tolstói a Stálin, datada de 17 de junho de 1941, sobre a situação de Bunin na França Telegrama cifrado soviético enviado de Paris em 12 de janeiro de 1956, marcado como estritamente secreto
Duas vezes, em segredo, o Estado soviético se ocupou de Bunin. À esquerda, 17 de junho de 1941: Aleksei Tolstói informa a Stálin que o escritor “passa fome” na França não ocupada e que escrevera a Teleshov — o mesmo do círculo Sreda, quase quarenta anos depois daquela mesa — duas palavras, “quero voltar para casa”. Cinco dias mais tarde a Alemanha invadiu a URSS e o assunto morreu. À direita, 12 de janeiro de 1956: telegrama cifrado, “estritamente secreto”, distribuído a todo o Politburo — Khruschov, Molotov, Mikoyan, Bulgánin, Voroshílov, Kaganóvitch, Gromyko — apenas para informar que cinco mil rublos de direitos autorais haviam sido entregues à viúva, em parcelas, por uma coletânea de contos que a URSS publicara em 1955. Bunin morrera na pobreza pouco mais de dois anos antes.

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A obra no tempo

1 na coleção · 15 no total
  1. 1891 Poemas 1887–1891 (primeira coletânea)
  2. 1897 Para o Fim do Mundo e Outros Contos
  3. 1901 Folhas que Caem (Listopad, poesia)
  4. 1910 A Aldeia (Derevnia)
  5. 1912 Vale Seco (Sukhodol)
  6. 1915 O Senhor de São Francisco — ler na coleção →
  7. 1918 Dias Malditos (diário; publicado no exílio)
  8. 1925 O Amor de Mítia (Mítina liubov)
  9. 1925 Insolação (Solnetchny udar)
  10. 1930 A Vida de Arséniev — livro I (As Fontes dos Dias)
  11. 1933 Prêmio Nobel de Literatura
  12. 1937 A Libertação de Tolstói (ensaio)
  13. 1939 A Vida de Arséniev — parte final (Lika)
  14. 1943 Aleias Escuras (Tiomnie alei, contos)
  15. 1950 Memórias

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