Autor · O último clássico da prosa russa
Voronej, 1870 — Paris, 1953 · 1 obra na coleção
Realismo russo · prosa clássica no exílio · 1887–1953
Ivan Alekséievitch Bunin (1870–1953) foi o primeiro escritor russo a receber o Prêmio Nobel de Literatura e é considerado o último grande mestre da prosa clássica russa — o elo que liga Tolstói e Tchékhov ao século XX. Poeta antes de ser contista, cronista de uma Rússia rural que ruía sob seus olhos e exilado que jamais aceitou o regime soviético, Bunin construiu uma obra de rigor quase musical, feita de luz, cheiro e memória. Para entender de onde vem essa prosa, é preciso conhecer não só os fatos da sua vida, mas o mundo de gênios que a cercou: as mãos que apertou, as cartas que trocou e as sombras — de Púchkin a Tolstói — sob as quais escolheu escrever.
Bunin nasceu em 22 de outubro de 1870, em Voronej, no coração da Rússia agrária, numa família da velha nobreza empobrecida — a mesma linhagem que dera à literatura russa a poetisa Anna Búnina, no século XVIII, e o poeta Vassíli Jukóvski, mestre e amigo do próprio Púchkin. Não era um detalhe genealógico qualquer: Bunin cresceu sabendo-se herdeiro de sangue de uma tradição literária, e essa consciência de pertencer a um mundo que se extinguia marcaria tudo o que escreveu. A infância e a juventude passou quase inteiramente no campo, nas propriedades decadentes do pai, nas férteis estepes da Rússia central de onde saíram, de Turguêniev a Tolstói, quase todos os grandes escritores do país. Foi ali que aprendeu a observar a natureza com a minúcia que se tornaria sua marca: poucos escritores souberam registrar como ele o exato tom de um pôr do sol ou o cheiro de uma maçã guardada no sótão.
A ruína financeira da família tirou-lhe a escola formal: Bunin frequentou o ginásio de Ieléts, mas não o concluiu. Sua verdadeira formação veio do irmão mais velho, Iúli, intelectual e ex-preso político ligado ao movimento populista, que lhe ensinou línguas, filosofia e literatura em longas conversas caseiras — foi Iúli, mais do que qualquer professor, quem plantou nele o rigor intelectual e o gosto pelos clássicos. Aos dezessete anos publicou os primeiros poemas; pouco depois empregava-se em jornais de província e em escritórios, sempre viajando muito — pela Itália, Sicília, Turquia, Grécia, Egito, Síria e Palestina —, um aprendizado de mundo que substituiu o diploma que nunca teve. “Tentei olhar o mundo e deixar sobre ele a marca da minha alma”, resumiria mais tarde.
Nenhum retrato de Bunin fica de pé sem as figuras imensas que cruzaram sua juventude — e é aqui que a sua biografia deixa de ser a de um provinciano autodidata e passa a ser a de um herdeiro reconhecido pela própria realeza literária russa. Em janeiro de 1894, aos vinte e três anos, Bunin conheceu Liev Tolstói em Moscou. A admiração beirava a devoção: por um tempo tentou literalmente viver segundo os preceitos do tolstoísmo — a vida simples, o trabalho manual — antes de se afastar dessa doutrina no início da década de 1910, sem jamais perder a reverência pelo escritor. Décadas depois, no exílio, dedicaria a Tolstói um livro inteiro de meditação, A Libertação de Tolstói (1937).
Mais próxima e mais afetuosa foi a amizade com Anton Tchékhov, que conheceu em 1895. Os dois se corresponderam com regularidade, e Bunin tornou-se presença constante na casa do escritor em Yalta; recordaria aqueles dias como “uma das lembranças mais felizes da minha vida”. Tchékhov saudou seus primeiros contos — ainda que achasse neles “densidade” demais — e foi, dos mestres, o que mais de perto moldou o senso buniniano de contenção e economia. A morte precoce de Tchékhov, em 1904, deixou-lhe uma ferida que ele tentaria elaborar num livro de memórias sobre o amigo, jamais concluído.
A partir de 1899, Bunin ligou-se a Maksím Górki, então a estrela ascendente das letras russas e seu oposto político. Dedicou-lhe a coletânea Folhas que Caem (1901) e passou com ele os invernos de 1912 a 1914 na ilha de Capri. Górki, mesmo depois que a Revolução rompeu de vez a amizade dos dois, continuou a classificá-lo entre os maiores escritores russos vivos. Foi também no fim dos anos 1890 que Bunin entrou para o círculo literário Sreda (“Quarta-feira”), fundado por Nikolai Teleshov, onde convivia toda semana com nomes como Aleksandr Kuprin, Leonid Andréiev e o próprio Górki, além de receber, como visitante, Tchékhov. Da vida artística de Moscou fazia parte ainda sua amizade com o compositor Serguei Rachmáninov e com o lendário baixo Fiódor Chaliápin — provas de que Bunin transitava não só entre escritores, mas no coração da cultura russa de seu tempo.
Esse pertencimento foi coroado em 1909, quando a Academia Russa de Ciências o elegeu um de seus mais jovens membros honorários — a mesma honraria que ostentava Tolstói. Aos trinta e nove anos, o menino sem diploma de Ieléts sentava-se, oficialmente, entre os imortais da literatura de seu país.
Bunin estreou como poeta, e a poesia jamais o abandonou. Contra a corrente do seu tempo, recusou o Simbolismo então dominante — a estética nebulosa e mística de Aleksandr Blok e Andrei Biéli, que reinava na Rússia da virada do século — e permaneceu fiel à clareza dos velhos mestres. Seus deuses eram outros: Púchkin acima de todos, Liérmontov, e a linhagem realista de Turguêniev, Tolstói e Tchékhov. Enquanto a chamada Idade de Prata explodia em experimentos ao seu redor, Bunin escrevia como quem guardava uma chama antiga. Sua obra de estreia madura, a coletânea Folhas que Caem (1901), e a tradução do Canto de Hiawatha, de Longfellow, renderam-lhe o Prêmio Púchkin, a mais alta honraria da Academia Russa de Ciências — que ele receberia uma segunda vez. Aos poucos, porém, foi a prosa que o consagrou. Em A Aldeia (1910) e Vale Seco (1912) traçou um retrato sombrio e sem idealizações do campesinato russo, contrariando tanto o populismo sentimental quanto o otimismo revolucionário de sua época.
Em 1915 Bunin escreveu aquele que se tornaria seu conto mais célebre: O Senhor de São Francisco. A história de um milionário americano que morre subitamente durante um cruzeiro de luxo pela Europa — e cujo corpo é despachado de volta, esquecido, no porão do mesmo navio — é uma parábola implacável sobre a vaidade da riqueza e a indiferença da morte. Escrito em prosa de precisão cristalina, o conto revelou ao mundo um autor à altura dos grandes mestres russos que o antecederam.
A Revolução de 1917 foi, para Bunin, uma catástrofe. Monarquista de temperamento e inimigo declarado dos bolcheviques, deixou Moscou em maio de 1918 e registrou o colapso da velha Rússia no diário Dias Malditos, um dos mais ferozes testemunhos anti-revolucionários da literatura russa. Depois de quase dois anos no sul do país, emigrou definitivamente em fevereiro de 1920. Instalou-se na França, dividindo a vida entre Paris e Grasse, nos Alpes Marítimos, onde viveria o resto dos dias — pobre, orgulhoso e escrevendo sem descanso sobre a pátria perdida.
No exílio, longe de definhar, sua arte amadureceu — e à sua volta formou-se toda uma constelação de gênios russos desterrados. Paris tornou-se a capital de uma Rússia paralela, e Bunin, seu decano incontestável: em torno dele gravitavam Aleksandr Kuprin, Ivan Chmeliov, a poeta Marina Tsvetáieva, o ensaísta Mark Aldanov — que se tornaria seu amigo mais fiel — e o casal simbolista Dmítri Merejkóvski e Zinaída Gippius. Foi nesse círculo que um jovem escritor iniciante, Vladímir Nabókov, começou a escrever-lhe em 1921 cartas de admiração quase filial, tratando-o como mestre; com os anos, a reverência do futuro autor de Lolita se transformaria numa rivalidade célebre entre os dois maiores prosadores da emigração. Escreveu O Amor de Mítia (1925) e, sobretudo, A Vida de Arséniev, romance autobiográfico em que a memória da Rússia se transfigura em pura poesia.
Em 1933, Bunin tornou-se o primeiro russo a receber o Nobel de Literatura, “pela arte rigorosa com que deu continuidade às tradições da prosa clássica russa”. A caminhada até lá fora longa: fora indicado ao prêmio dezoito vezes desde 1923, quando recebeu o apoio do francês Romain Rolland, ele próprio um Nobel, numa campanha discreta conduzida pelo amigo Aldanov. Foi um triunfo carregado de simbolismo: o prêmio coroava não o país soviético, mas a Rússia da emigração. Já durante a Segunda Guerra, escondido em Grasse e recusando-se a colaborar com os ocupantes — a quem, apesar da miséria, negou qualquer gesto de simpatia —, escreveu Aleias Escuras (1943), o ciclo de contos sobre o amor e a memória que muitos consideram sua obra-prima.
Bunin morreu em Paris, em 8 de novembro de 1953, na pobreza, e foi sepultado no cemitério russo de Sainte-Geneviève-des-Bois. Deixou uma obra que é, ao mesmo tempo, o epílogo da grande literatura russa do século XIX e uma das vozes mais originais do exílio. Sua prosa — sensorial, exata, avessa a qualquer sentimentalismo — atravessou o século e continua a ser lida como um modelo de contenção e precisão. Ler Bunin hoje é entrar num mundo que desapareceu por completo e que, justamente por isso, ele salvou para sempre: a Rússia dos pomares, das estepes e das casas silenciosas, guardada palavra por palavra na memória de quem nunca pôde voltar.
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