Autor · O arquiteto do horror cósmico
Providence, EUA, 1890 — Providence, 1937
Horror cósmico · weird fiction · 1917–1937
Howard Phillips Lovecraft (1890–1937) inventou um tipo de medo que a literatura ainda não tinha: não o susto do fantasma nem o terror do monstro, mas o pavor diante de um universo imenso, antigo e completamente indiferente à existência humana. É o horror cósmico — e, um século depois, sua criatura mais famosa, Cthulhu, virou ícone global de uma ideia perturbadora: a de que somos pequenos, recentes e irrelevantes diante do que existe lá fora.
Lovecraft nasceu em 20 de agosto de 1890 em Providence, Rhode Island — cidade da qual quase nunca se afastou e que amou a ponto de mandar gravar no próprio túmulo, décadas depois, a frase “I AM PROVIDENCE” (“Eu sou Providence”). A infância foi marcada por duas tragédias precoces: o pai, Winfield, sofreu um colapso psicótico em 1893 e morreu internado em 1898, vítima de sífilis em estágio avançado; a mãe, Susie, superprotetora e ela própria instável, o criou num ambiente de luto e ansiedade.
Menino prodígio, lia e escrevia aos três anos, recitava mitologia greco-romana aos sete e mergulhava em astronomia e química aos oito. O avô materno, Whipple Phillips, foi a grande figura paterna — e foi a ruína financeira e a morte do avô, em 1904, que precipitaram a família na pobreza e o jovem Howard num de seus períodos mais sombrios, à beira do suicídio. Uma série de “colapsos nervosos” o impediu de concluir o ensino médio e de cursar a universidade que sonhava.
Foi pela imprensa amadora que Lovecraft encontrou uma comunidade e uma voz. A partir de 1914, envolveu-se com a United Amateur Press Association, escreveu crítica, poesia e seus primeiros contos, e chegou à presidência da entidade. Em 1917 escreveu “Dagon”; no início dos anos 1920, os primeiros contos do que viria a ser o Cthulhu Mythos.
A publicação profissional veio pela lendária revista pulp Weird Tales, a partir de 1923. Ali saíram muitos de seus contos — mas o pagamento era irregular e mesquinho, e Lovecraft, orgulhoso e avesso à autopromoção, muitas vezes desistia de um texto após uma única recusa. Ganhou a vida, sobretudo, como revisor e ghostwriter de outros autores, quase sempre à beira da miséria.
Em 1921 conheceu Sonia Greene, escritora amadora, com quem se casou em 1924. Mudou-se para o Brooklyn, e por um breve momento Nova York o encantou. Mas o sonho ruiu depressa: Sonia perdeu o negócio numa quebra bancária, Lovecraft não conseguia emprego por falta de qualificações práticas, o apartamento foi assaltado, e a metrópole cosmopolita passou a lhe causar repulsa — sentimento que se misturava, é preciso dizer, aos seus preconceitos. Em 1926 voltou a Providence, para a casa das tias. O casamento terminou em divórcio amigável em 1933.
O retorno a Providence abriu sua fase mais fértil. Entre 1926 e a morte, escreveu suas obras centrais: O Chamado de Cthulhu, A Cor que Caiu do Espaço, O Horror de Dunwich, A Sombra sobre Innsmouth, As Montanhas da Loucura, A Sombra Vinda do Tempo. Nelas, consolidou o cosmicismo: a ideia de que o universo é regido por forças imensas e alheias, diante das quais a humanidade é um acidente insignificante — e de que o verdadeiro horror não é ser atacado, mas compreender, por um instante, a própria irrelevância.
A técnica é característica: cenários realistas e documentais (Nova Inglaterra, universidades, arquivos), narradores eruditos e céticos, uma revelação que corrói a sanidade, e um panteão de entidades e livros proibidos — o Necronomicon, Cthulhu, Nyarlathotep — que outros autores foram convidados a reutilizar, num raro gesto de mitologia compartilhada.
Situar Lovecraft no seu tempo exige honestidade: ele sustentou, por boa parte da vida, opiniões racistas e xenófobas, expressas em cartas, em poemas e, por vezes, na própria ficção — em que o “diferente” e o “estrangeiro” aparecem associados à degeneração e ao horror. Não é um detalhe menor nem algo que a admiração pela obra possa apagar; é parte do retrato. Ler Lovecraft hoje é também reconhecer esse ponto cego — e perceber, com alguma ironia, que o autor que imaginou como ninguém o pavor do desconhecido foi, ele próprio, prisioneiro do medo do outro. Nos últimos anos, empobrecido e abalado pela Depressão, suas posições políticas se moveram para a esquerda, sem que os preconceitos desaparecessem por completo.
Lovecraft morreu pobre e quase desconhecido em 15 de março de 1937, aos 46 anos, de câncer no intestino, na sua Providence natal. Publicara em vida quase só nas páginas efêmeras das revistas pulp; nenhum livro de contos de peso saíra com seu nome.
A glória veio depois — e por obra dos amigos. Dois correspondentes e discípulos, August Derleth e Donald Wandrei, fundaram a editora Arkham House com um único propósito inicial: salvar a obra de Lovecraft do esquecimento, reunindo seus contos em livro. Deu certo. Da revista pulp esquecida, Lovecraft ascendeu a pilar da cultura moderna: sua sombra alcança Stephen King, Jorge Luis Borges, Guillermo del Toro, o cinema, os quadrinhos, os jogos — e, é claro, Edgar Allan Poe, de quem se dizia herdeiro e a quem dedicou o ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura. Poucos autores foram tão ignorados em vida e tão onipresentes depois da morte.
A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.