Revista de clássicos · em domínio público
Rastro do Tempo

Autor · Mestre do terror psicológico

Edgar Allan Poe

Boston, 1809 — Baltimore, 1849 · 3 obras na coleção

Romantismo Americano · vertente sombria · 1830–1849

“E o corvo, sem nunca alçar voo, ainda repousa — e nunca mais partirá.” — O Corvo · 1845 “É verdade! nervoso, muito nervoso eu fui e ainda sou; mas por que dizem que sou louco?” — O Coração Delator · 1843 “Éramos crianças, eu e ela, num reino à beira-mar — mas amávamos com um amor que era mais que amor.” — Annabel Lee · 1849 “Durante todo um dia mudo, sombrio e silencioso de outono, eu atravessara sozinho a região mais lúgubre.” — A Queda da Casa de Usher · 1839 “Toda a minha vida foi capricho, impulso, paixão — um anseio pela solidão e pelo futuro.” — Edgar Allan Poe “E o corvo, sem nunca alçar voo, ainda repousa — e nunca mais partirá.” — O Corvo · 1845 “É verdade! nervoso, muito nervoso eu fui e ainda sou; mas por que dizem que sou louco?” — O Coração Delator · 1843 “Éramos crianças, eu e ela, num reino à beira-mar — mas amávamos com um amor que era mais que amor.” — Annabel Lee · 1849 “Durante todo um dia mudo, sombrio e silencioso de outono, eu atravessara sozinho a região mais lúgubre.” — A Queda da Casa de Usher · 1839 “Toda a minha vida foi capricho, impulso, paixão — um anseio pela solidão e pelo futuro.” — Edgar Allan Poe

O autor além do rótulo

Biografia

Edgar Allan Poe (1809–1849) foi um dos maiores escritores da literatura ocidental — o pai do conto moderno de terror, o fundador da ficção policial e um dos precursores da ficção científica. Tudo isso em apenas quarenta anos de vida, marcados por perdas, miséria e um brilho que o próprio país onde nasceu demorou a reconhecer.

Origens e infância

Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Boston, filho de dois atores ambulantes. O pai desapareceu quando Edgar tinha um ano; a mãe, Elizabeth, morreu de tuberculose quando ele tinha dois. O menino foi acolhido — mas nunca formalmente adotado — pela família de John Allan, um próspero comerciante escocês de Richmond, na Virgínia, de quem herdou o nome do meio.

Entre 1815 e 1820 os Allan viveram na Europa, e Edgar estudou em colégios de prestígio na Escócia e na Inglaterra — uma infância de privilégio que contrastaria de forma cruel com a vida adulta. De volta aos Estados Unidos, ingressou na Universidade da Virgínia, mas foi obrigado a abandoná-la em 1827, sufocado por dívidas de jogo. O episódio rompeu de vez sua relação com o pai adotivo, que lhe negava apoio justamente quando ele mais precisava.

Um nômade por necessidade

A casa de Poe em Baltimore
A casa de Poe na 203 Amity Street, em Baltimore, onde viveu de 1833 a 1835. Hoje, um museu dedicado ao autor.

Poe nunca teve raízes. A necessidade o empurrou por pelo menos cinco cidades, e cada uma deixou marca na obra. Em Boston, publicou anonimamente o primeiro livro, Tamerlão e Outros Poemas (1827). Em Richmond, cresceu como filho dos Allan. Em Baltimore, viveu com a tia Maria Clemm e a prima Virginia, e deu os primeiros passos como contista. Foi na Filadélfia que escreveu parte do seu melhor — entre eles O Coração Delator e A Queda da Casa de Usher. E foi em Nova York que terminou O Corvo e viu a esposa definhar.

Viver da pena

Carta manuscrita de Edgar Allan Poe, 1842
Carta de Poe, Nova York, 1842. A caligrafia precisa e controlada desmente o mito do gênio descontrolado.

Poe foi o primeiro escritor americano a tentar viver exclusivamente da literatura — e pagou caro pela ousadia. Trabalhou como crítico temido e editor de revistas, brigou com pagadores mesquinhos e atravessou a vida quase sempre na pobreza. As cartas que sobreviveram mostram um profissional meticuloso, obcecado pela ideia de que o conto deveria ser uma máquina de precisão: cada palavra a serviço de um único efeito, calculado de antemão. Poe não escrevia no transe do gênio. Ele construía.

Virginia Clemm e o amor trágico

Em 1836, Poe casou-se com a prima Virginia Clemm, então com treze anos — uma união que choca o leitor de hoje, mas pela qual ele demonstrou devoção profunda. Em 1842, Virginia contraiu tuberculose, a mesma doença que matara a mãe de Poe. Durante cinco anos ele a viu morrer aos poucos, e foi nesse período que escreveu algumas de suas páginas mais sombrias. A morte de Virginia, em 1847, o destruiu por dentro.

A obra: entre o terror e a beleza

Ilustração de O Corvo, de Edgar Allan Poe
"Nevermore": ilustração de O Corvo, o poema que tornou Poe um nome nacional em 1845.

Poe não se contentou em assustar — ele teorizou sobre a própria arte. Em A Filosofia da Composição (1846), descreveu passo a passo como construiu O Corvo, defendendo que toda obra deve produzir no leitor um único efeito, perseguido desde a primeira linha. Sua produção se divide em três grandes vertentes:

  • Terror psicológico e góticoA Queda da Casa de Usher, O Gato Preto, O Coração Delator, A Máscara da Morte Rubra.
  • Mistério e deduçãoOs Crimes da Rua Morgue, A Carta Roubada, O Escaravelho de Ouro, que fundaram o molde de toda a ficção policial que veio depois.
  • PoesiaO Corvo, Annabel Lee, Ulalume, Os Sinos.

O monstro de Poe raramente está no porão. Quase sempre, está narrando.

O crítico temido e as guerras literárias

Poe não era só autor: era o crítico mais afiado — e mais temido — da imprensa literária americana. Escrevia resenhas demolidoras, caçava plágios e não poupava nomes consagrados, o que lhe rendeu tantos inimigos quanto admiradores. Sua campanha mais famosa ficou conhecida como a “Guerra de Longfellow”: Poe acusou repetidamente Henry Wadsworth Longfellow, o poeta mais querido do país, de plágio e de facilidade sentimental. A acusação era em parte injusta e em parte um manifesto estético — Poe usava Longfellow para atacar toda uma escola de poesia didática e moralizante que ele desprezava.

Foi O Corvo, em 1845, que o tornou finalmente célebre. O poema correu o país, foi reproduzido e parodiado sem parar, e transformou Poe numa figura pública — embora, ironia amarga de sua vida, tenha lhe rendido apenas alguns dólares. Nesse período de fama, envolveu-se num triângulo literário com a poeta Frances Sargent Osgood, disputada também por um crítico rival, Rufus Griswold — nome que voltaria, depois da morte de Poe, para assombrá-lo.

O rosto de Poe

Daguerreótipo McKee de Edgar Allan Poe, c. 1842
O daguerreótipo "McKee" (c. 1842): a imagem mais antiga conhecida de Poe e fonte da primeira gravura dele já publicada, em 1843.

Sobreviveram pouquíssimas imagens autênticas de Poe. Das oito chapas de daguerreótipo originais, apenas três foram localizadas até hoje — as demais se perderam, foram roubadas ou destruídas, o que faz de cada retrato uma raridade.

Daguerreótipo Whitman de Edgar Allan Poe, 1848
O daguerreótipo "Whitman" (Providence, 1848): o único que Poe encomendou e que considerava o melhor retrato que lhe fizeram. Hoje na Brown University.

Seis anos depois do McKee, já viúvo e a menos de um ano da morte, Poe posou para o daguerreótipo “Whitman” — feito a seu próprio pedido e tido por ele como sua melhor imagem. Entre um retrato e outro cabe a vida inteira do escritor: da promessa juvenil ao homem marcado pela perda.

A morte e o mistério

Monumento fúnebre de Edgar Allan Poe em Baltimore
O monumento de Poe em Baltimore, com o medalhão de bronze e a inscrição Quoth the Raven, Nevermore.

Poe morreu em 7 de outubro de 1849, em Baltimore, aos quarenta anos, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Foi encontrado delirante nas ruas, vestindo roupas que não eram suas, e não recuperou a lucidez antes de morrer. As hipóteses se acumulam — alcoolismo, raiva, sífilis, envenenamento, até o cooping, a fraude eleitoral que sequestrava homens para votar várias vezes sob coação e bebida. Nenhuma foi provada. A morte do mestre do mistério tornou-se, ela própria, o seu último enigma.

Griswold e a lenda difamatória

A reputação sombria de Poe — o boêmio degenerado, o viciado incorrigível — não é obra do acaso: é obra de um inimigo. Rufus Griswold, o rival dos tempos de Frances Osgood, conseguiu tornar-se, por manobra, o executor literário de Poe. Poucos dias após a morte, publicou um obituário venenoso assinado com o pseudônimo “Ludwig”, e depois um “Memorial” biográfico que inventava vícios, forjava cartas e pintava o autor como um monstro moral. A caluniosa biografia pegou — e foi ela que, por décadas, moldou a imagem popular de Poe. Amigos como Sarah Helen Whitman e George Graham saíram em sua defesa, mas o estrago estava feito. Há uma perversa justiça poética nisso: o homem que inventou o detetive literário teve a própria memória vítima de uma farsa, e a verdade sobre ele precisou ser, aos poucos, investigada e reconstruída como num de seus contos.

Legado universal

O reconhecimento veio tarde em casa e cedo na Europa — e por uma via inesperada. Foi um poeta francês, Charles Baudelaire, quem resgatou Poe da lenda difamatória de Griswold: durante dezessete anos, Baudelaire traduziu-lhe os contos com devoção quase religiosa, dizendo rezar por ele como por um santo, e o consagrou na França como o arquétipo do poeta maldito, incompreendido por uma sociedade mercantil. Depois de Baudelaire veio Stéphane Mallarmé, e por essa consagração francesa os próprios Estados Unidos reaprenderam a ler o autor que haviam deixado morrer na sarjeta.

A sombra de Poe é imensa e ramificada. Dele descende Arthur Conan Doyle e todo o romance policial — Sherlock Holmes é neto direto do detetive Dupin, que Poe inventou nos Crimes da Rua Morgue. Dele descendem Dostoiévski e a vertigem psicológica, Júlio Verne e parte da ficção científica, H. P. Lovecraft e o horror cósmico, e uma linhagem que chega a Stephen King, Jorge Luis Borges e ao cinema. Poucos autores fundaram tantos gêneros; nenhum o fez em tão pouco tempo de vida. O homem que morreu pobre e caluniado numa rua de Baltimore acabou se tornando um dos escritores mais lidos e imitados da história — a mais improvável de suas próprias tramas.

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A obra no tempo

3 na coleção · 68 no total
  1. 1827 Tamerlão e Outros Poemas
  2. 1832 Metzengerstein
  3. 1832 O Duque de L’Omelette
  4. 1832 Um Conto de Jerusalém
  5. 1832 Perda de Fôlego
  6. 1832 Bon-Bon
  7. 1833 Manuscrito Encontrado numa Garrafa
  8. 1834 A Designação (O Visionário)
  9. 1835 Berenice
  10. 1835 Morella
  11. 1835 Rei Peste
  12. 1835 Sombra — Uma Parábola
  13. 1835 A Aventura Ímpar de Hans Pfaall
  14. 1836 Quatro Feras em Uma
  15. 1837 Mistificação
  16. 1838 Silêncio — Uma Fábula
  17. 1838 Ligeia
  18. 1838 Como Escrever um Artigo para a Blackwood
  19. 1838 Um Impasse
  20. 1838 A Narrativa de Arthur Gordon Pym (romance)
  21. 1839 O Diabo no Campanário
  22. 1839 O Homem que Foi Consumido
  23. 1839 A Queda da Casa de Usher — ler na coleção →
  24. 1839 William Wilson — ler na coleção →
  25. 1839 A Conversa de Eiros e Charmion
  26. 1840 Por que o Pequeno Francês Usa o Braço na Tipoia
  27. 1840 O Homem de Negócios
  28. 1840 O Homem da Multidão
  29. 1841 A Ilha da Fada
  30. 1841 Os Crimes da Rua Morgue
  31. 1841 Uma Descida no Maelström
  32. 1841 Colóquio de Monos e Una
  33. 1841 Três Domingos numa Semana
  34. 1842 Eleonora
  35. 1842 O Retrato Oval
  36. 1842 A Máscara da Morte Rubra
  37. 1842 O Mistério de Marie Rogêt
  38. 1842 O Poço e o Pêndulo
  39. 1843 O Coração Delator — ler na coleção →
  40. 1843 O Escaravelho de Ouro
  41. 1843 O Gato Preto
  42. 1843 A Picaretagem como uma das Ciências Exatas
  43. 1844 Os Óculos
  44. 1844 Um Conto das Montanhas Esfarrapadas
  45. 1844 Sepultamento Prematuro
  46. 1844 A Carta Roubada
  47. 1844 O Sistema do Doutor Tarr e do Professor Fether
  48. 1844 O Anjo do Bizarro
  49. 1844 A Fraude do Balão
  50. 1844 És Tu o Homem
  51. 1844 A Caixa Oblonga
  52. 1844 Revelação Mesmérica
  53. 1845 A Vida Literária do Senhor Thingum Bob
  54. 1845 Os Fatos no Caso do Sr. Valdemar
  55. 1845 O Poder das Palavras
  56. 1845 O Demônio da Perversidade
  57. 1845 Algumas Palavras com uma Múmia
  58. 1845 O Milésimo Segundo Conto de Sherazade
  59. 1845 O Corvo (poema)
  60. 1846 A Esfinge
  61. 1846 O Barril de Amontillado
  62. 1847 O Domínio de Arnheim
  63. 1849 Von Kempelen e Sua Descoberta
  64. 1849 Riscando um Parágrafo
  65. 1849 Hop-Frog
  66. 1849 O Chalé de Landor
  67. 1849 Mellonta Tauta
  68. 1849 Annabel Lee (poema)

A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.