Autor · Mestre do terror psicológico
Boston, 1809 — Baltimore, 1849 · 3 obras na coleção
Romantismo Americano · vertente sombria · 1830–1849
Edgar Allan Poe (1809–1849) foi um dos maiores escritores da literatura ocidental — o pai do conto moderno de terror, o fundador da ficção policial e um dos precursores da ficção científica. Tudo isso em apenas quarenta anos de vida, marcados por perdas, miséria e um brilho que o próprio país onde nasceu demorou a reconhecer.
Poe nasceu em 19 de janeiro de 1809, em Boston, filho de dois atores ambulantes. O pai desapareceu quando Edgar tinha um ano; a mãe, Elizabeth, morreu de tuberculose quando ele tinha dois. O menino foi acolhido — mas nunca formalmente adotado — pela família de John Allan, um próspero comerciante escocês de Richmond, na Virgínia, de quem herdou o nome do meio.
Entre 1815 e 1820 os Allan viveram na Europa, e Edgar estudou em colégios de prestígio na Escócia e na Inglaterra — uma infância de privilégio que contrastaria de forma cruel com a vida adulta. De volta aos Estados Unidos, ingressou na Universidade da Virgínia, mas foi obrigado a abandoná-la em 1827, sufocado por dívidas de jogo. O episódio rompeu de vez sua relação com o pai adotivo, que lhe negava apoio justamente quando ele mais precisava.
Poe nunca teve raízes. A necessidade o empurrou por pelo menos cinco cidades, e cada uma deixou marca na obra. Em Boston, publicou anonimamente o primeiro livro, Tamerlão e Outros Poemas (1827). Em Richmond, cresceu como filho dos Allan. Em Baltimore, viveu com a tia Maria Clemm e a prima Virginia, e deu os primeiros passos como contista. Foi na Filadélfia que escreveu parte do seu melhor — entre eles O Coração Delator e A Queda da Casa de Usher. E foi em Nova York que terminou O Corvo e viu a esposa definhar.
Poe foi o primeiro escritor americano a tentar viver exclusivamente da literatura — e pagou caro pela ousadia. Trabalhou como crítico temido e editor de revistas, brigou com pagadores mesquinhos e atravessou a vida quase sempre na pobreza. As cartas que sobreviveram mostram um profissional meticuloso, obcecado pela ideia de que o conto deveria ser uma máquina de precisão: cada palavra a serviço de um único efeito, calculado de antemão. Poe não escrevia no transe do gênio. Ele construía.
Em 1836, Poe casou-se com a prima Virginia Clemm, então com treze anos — uma união que choca o leitor de hoje, mas pela qual ele demonstrou devoção profunda. Em 1842, Virginia contraiu tuberculose, a mesma doença que matara a mãe de Poe. Durante cinco anos ele a viu morrer aos poucos, e foi nesse período que escreveu algumas de suas páginas mais sombrias. A morte de Virginia, em 1847, o destruiu por dentro.
Poe não se contentou em assustar — ele teorizou sobre a própria arte. Em A Filosofia da Composição (1846), descreveu passo a passo como construiu O Corvo, defendendo que toda obra deve produzir no leitor um único efeito, perseguido desde a primeira linha. Sua produção se divide em três grandes vertentes:
O monstro de Poe raramente está no porão. Quase sempre, está narrando.
Poe não era só autor: era o crítico mais afiado — e mais temido — da imprensa literária americana. Escrevia resenhas demolidoras, caçava plágios e não poupava nomes consagrados, o que lhe rendeu tantos inimigos quanto admiradores. Sua campanha mais famosa ficou conhecida como a “Guerra de Longfellow”: Poe acusou repetidamente Henry Wadsworth Longfellow, o poeta mais querido do país, de plágio e de facilidade sentimental. A acusação era em parte injusta e em parte um manifesto estético — Poe usava Longfellow para atacar toda uma escola de poesia didática e moralizante que ele desprezava.
Foi O Corvo, em 1845, que o tornou finalmente célebre. O poema correu o país, foi reproduzido e parodiado sem parar, e transformou Poe numa figura pública — embora, ironia amarga de sua vida, tenha lhe rendido apenas alguns dólares. Nesse período de fama, envolveu-se num triângulo literário com a poeta Frances Sargent Osgood, disputada também por um crítico rival, Rufus Griswold — nome que voltaria, depois da morte de Poe, para assombrá-lo.
Sobreviveram pouquíssimas imagens autênticas de Poe. Das oito chapas de daguerreótipo originais, apenas três foram localizadas até hoje — as demais se perderam, foram roubadas ou destruídas, o que faz de cada retrato uma raridade.
Seis anos depois do McKee, já viúvo e a menos de um ano da morte, Poe posou para o daguerreótipo “Whitman” — feito a seu próprio pedido e tido por ele como sua melhor imagem. Entre um retrato e outro cabe a vida inteira do escritor: da promessa juvenil ao homem marcado pela perda.
Poe morreu em 7 de outubro de 1849, em Baltimore, aos quarenta anos, em circunstâncias até hoje não esclarecidas. Foi encontrado delirante nas ruas, vestindo roupas que não eram suas, e não recuperou a lucidez antes de morrer. As hipóteses se acumulam — alcoolismo, raiva, sífilis, envenenamento, até o cooping, a fraude eleitoral que sequestrava homens para votar várias vezes sob coação e bebida. Nenhuma foi provada. A morte do mestre do mistério tornou-se, ela própria, o seu último enigma.
A reputação sombria de Poe — o boêmio degenerado, o viciado incorrigível — não é obra do acaso: é obra de um inimigo. Rufus Griswold, o rival dos tempos de Frances Osgood, conseguiu tornar-se, por manobra, o executor literário de Poe. Poucos dias após a morte, publicou um obituário venenoso assinado com o pseudônimo “Ludwig”, e depois um “Memorial” biográfico que inventava vícios, forjava cartas e pintava o autor como um monstro moral. A caluniosa biografia pegou — e foi ela que, por décadas, moldou a imagem popular de Poe. Amigos como Sarah Helen Whitman e George Graham saíram em sua defesa, mas o estrago estava feito. Há uma perversa justiça poética nisso: o homem que inventou o detetive literário teve a própria memória vítima de uma farsa, e a verdade sobre ele precisou ser, aos poucos, investigada e reconstruída como num de seus contos.
O reconhecimento veio tarde em casa e cedo na Europa — e por uma via inesperada. Foi um poeta francês, Charles Baudelaire, quem resgatou Poe da lenda difamatória de Griswold: durante dezessete anos, Baudelaire traduziu-lhe os contos com devoção quase religiosa, dizendo rezar por ele como por um santo, e o consagrou na França como o arquétipo do poeta maldito, incompreendido por uma sociedade mercantil. Depois de Baudelaire veio Stéphane Mallarmé, e por essa consagração francesa os próprios Estados Unidos reaprenderam a ler o autor que haviam deixado morrer na sarjeta.
A sombra de Poe é imensa e ramificada. Dele descende Arthur Conan Doyle e todo o romance policial — Sherlock Holmes é neto direto do detetive Dupin, que Poe inventou nos Crimes da Rua Morgue. Dele descendem Dostoiévski e a vertigem psicológica, Júlio Verne e parte da ficção científica, H. P. Lovecraft e o horror cósmico, e uma linhagem que chega a Stephen King, Jorge Luis Borges e ao cinema. Poucos autores fundaram tantos gêneros; nenhum o fez em tão pouco tempo de vida. O homem que morreu pobre e caluniado numa rua de Baltimore acabou se tornando um dos escritores mais lidos e imitados da história — a mais improvável de suas próprias tramas.
Newsletter mensal
Histórias de autores, o tempo em que escreveram e bastidores da coleção. Não enviamos obras nem o material das edições — só a carta. Sem spam.
A obra no seu tempo — e no nosso. Cada título situa o momento em que foi escrito e o que ele ainda diz ao leitor de hoje.